A violência urbana deixa marcas
na saúde moral da sociedade. Seus sintomas
se materializam no espaço geográfico das grandes cidades através das
cercas, muros altos, câmeras e possuem
sua apoteose nos condomínios fechados, verdadeiros simulacros urbanos. A
violência também se manifesta nos signos culturais; músicas que explicitam a
violência, apologéticas ou não, a fuga do olhar do estranho e na desconfiança
do outro. A violência começa no ato, sendo este físico, e explodem em potência
pela psique coletiva. Partindo deste pressuposto será realmente correto
e funcional abordar a violência urbana apenas no tocante a sua materialidade
momentânea do ato criminoso? Será prudente pensar suas causas apenas na frieza
dos dados “secos” dos relatórios policiais?
Em um primeiro momento, apesar da proposta inicial, é necessário focar
nos dados estatísticos. Apesar elasticidade com o qual estes dados podem ser
vistos e aplicados em diferentes meios e modos de análise, cabem dialeticamente
ao meu propósito de desconstruir certos conceitos a priori consolidados.
No estado São Paulo no ano de 2010 ocorreram, segundo SIM/SVS/MS, 3845
homicídios por arma de fogo. Já no caso
de mortes em acidentes automobilísticos no mesmo ano foi de 4638 vítimas num total
de 41.252.160 habitantes, segundo dados da secretaria de segurança pública do
Estado de São Paulo. Parece latente que a percepção do medo da população da
violência urbana seja maior do que o fato em si.
O medo da violência urbana se torna um negócio rentável, quando certos
serviços são oferecidos justamente para aplacar esta angustia do medo de ser
vítima de morte violenta. É evidente o aumento do número de serviços de segurança
privados na capital paulistana, que hoje ultrapassam até mesmo o efetivo da
polícia militar, considerado um dos maiores efetivos do Brasil. Os espaços
privados e “devidamente monitorados” de consumo, os shoppings centers, só no
ano de 2012 cresceram em 10%, segundo dados do próprio governo estadual. As
escolas particulares de renome já reestruturaram seus sistemas de segurança,
além de câmeras e catracas eletrônicas, chips de localização em uniformes
escolares começam a ser estudados como medidas preventivas. Os meios de grande mídia
também exploram este medo em busca de lucro fácil. Programas televisivos ditos “jornalísticos”
exploram a violência pela sua estética “macabra” e não existe preocupação em
transmitir ao seu espectador uma análise mais fria e real das causas deste
fenômeno.
Qual seria então a explicação para este fenômeno de fascinação da sociedade
pela violência e deste culto estranho ao medo? Thomas Hobbes, importante
filósofo contratualista, alertava ao fato de que a humanidade é naturalmente egoísta
e violenta, “o homem é o lobo do próprio homem”. Em contraposição, numa negação
do essencialismo, o existencialista Jean Paul Sartre afirmara na máxima “o
inferno são os outros”, ou seja, na busca de minha afirmação e da minha
construção enquanto “ser” delego ao “outro” os defeitos que temo em mim.
Enfim, qual seria então o procedimento mais cabível a sociedade e ao
cientista social para solucionar ou amenizar o problema da violência urbana?
Claro que além de pensarmos em solucionar os já “chavões” e necessários motores
da violência como a desigualdade social, deficientes programas educacionais, leis
arcaicas e pouco funcionais, falta de lazer, entre outros, é mister indagar; e
a produção do medo, interessa a quem?